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quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

0 [Nuccia em Prosa] - Conto "Olhos Assim"

Oi pessoas!

Há pouco tempo, participei de um curso de escrita literária. Das várias atividades, surgiram vários novos contos. Então, porque eu gostei mesmo do que escrevi e também porque foram revisados (logo, estarão bem melhores do que outros), escolhi compartilhá-los com vocês.

E, que interessante, como nenhum faz parte de uma antologia e/ou livro publicado, vocês os terão na íntegra!

O conto de hoje é "Olhos Assim". 

A ideia original era escrever um conto baseado em uma música. Depois de ficar surda, eu esqueci muitas músicas, simplesmente porque deixei de ouví-las. É, cérebro é um treco estranho. Outras, no entanto, ainda lembro, inclusive a melodia. 'Ojos Así' é uma dessas; eu sou (ou era?) fã da Shakira, além disso foi uma das músicas do meu último relacionamento... Sim, sou moderna, mas tenho recaídas. 



Leia este e outros contos no meu perfil do Wattpad:


Enfim, vamos ao conto?



Olhos assim

Depois de anos viajando, cheguei nessa pequena cidade ao sul do Marrocos. Aqui, as pessoas deveriam parecer tão perdidas quanto eu, com suas vidas sob condições precárias, medicina ausente, religião permanente, mas eram apenas humildes. De uma simplicidade tal que me fizeram sorrir após anos de solidão em buscas infundadas.
Havia acabado de sair da capital do Líbano, Beirute, onde estive depois de passar por Baherin, na Pérsia. Apenas dois dos tantos lugares que já visitei tanto ao Norte quanto ao Sul. Ao invés de seguir para o frio norte europeu ou o moderno leste, decidi-me pela África. Quis conhecer a cidade que era conhecida como ‘a porta do deserto’, a fronteira. E ali estava, cercada de prédios de barro com janelas ínfimas, mulheres de véus negros, homens de roupas coloridas, viajantes e comerciantes em seus camelos. E areia.
Hoje meu plano era seguir com os comerciantes para o oásis mais próximo, atravessar o deserto. Mas, desde ontem, minha vida havia mudado, agora havia um motivo para parar. Eu não conseguia esquecer aqueles olhos. Os olhos negros nos quais eu queria viver.
Tudo convergiu para aquele momento. Houve uma tempestade de areia que encobriu o Sol. Na fuga, tropecei em um homem mais perdido em si mesmo do que eu. Entrei na primeira porta aberta, uma prisão. E seu único prisioneiro era um estrangeiro que tentou deter o apedrejamento de uma mulher muçulmana. Ali, ao som de uma música triste e desconhecida, saída do rádio da mesa principal, aprendi que hombridade tem lugar e hora; e, obviamente, não tem religião.
Foi quando tornei à rua que o encontrei. Ou melhor, ele me encontrou. Quase fui atropelada por um camelo fugitivo. Se ele não tivesse surgido, certamente teria acontecido. Usava as roupas simples do povo local, a pele morena característica da região, cabelos negros espalhados ao vento. Tão igual e, ao mesmo tempo, tão diferente. Um sorriso de dentes relativamente bem cuidados, um brilho do olhar. Se não fosse aquele brilho, aquela vitalidade, talvez o caso todo fosse apenas mais um evento cotidiano. Mas, por causa desse brilho negro, eu iniciei uma conversa, ri com um desconhecido, andei pela cidade acompanhada, bebi um chá de gosto forte, me apaixonei, e hoje estou aqui, na ‘porta do deserto’, sem saber se continuo minha busca, ou se ela realmente, finalmente, chegou ao fim.
Pois tudo que vejo ali, sob Sol escaldante, com o horizonte intenso a minha frente, são seus olhos. Não há para onde ir. Não há nem por quê. Agora, tudo que peço aos céus é que em teus olhos me deixe viver.


(inspirado na música “Ojos así”, de Shakira)

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